






Neste último fim de semana, fomos subir o Ramelau. O grupo era constituído por seis intrépidos montanhistas - a Carla, a Isabel, o Tozé, o Gabriel, o Zé Carlos e eu próprio - que se dispuseram a desafiar a época das chuvas entretanto firmemente instalada para ver o glorioso nascer do sol lá do alto. Com quase 3.000 metros, o Ramelau era o ponto mais alto do antigo império português, sendo por isso conhecido, pelo menos de nome, pelas mesmas gerações que também sabem recitar de cor os apeadeiros da linha do Tua.
Desta vez, e para variar, optámos por um esquema organizado: fomos numa carrinha da Megatours com motorista próprio, que era bastante simpático e cheio de histórias incríveis dos tempos passados a combater nas montanhas. Uma elas foi especialmente gira, sobre o tempo em que ele e mais pessoal da UDT foram treinados pela Indonésia para irem para a linha da frente combater as Falintil. O que os indonésios não sabiam é que eles estavam feitos com as Falintil e por isso não se combatiam: avisavam-se uns aos outros das investidas e andavam ali para a frente e para trás a engonhar. De vez em quando, os timorenses do lado indonésio (incluindo o nosso motorista) combinavam e deixavam passar o pessoal das Falintil pelo meio das suas linhas para atacarem os verdadeiros indonésios que constituiam a segunda linha. O esquema foi descoberto porque as chefias indonésias começaram a achar estranho não haver baixas na frente - só na segunda linha!!! Na pousada no sopé do Ramelau, conhecemos também um outro tipo que é um verdadeiro documentro histórico sob a fomra de pessoa: esteve - e foi baleado - no massacre de Santa Cruz, tendo fugido para a montanha com uma bala na perna porque sabia que o exército indonésio estava a assassinar os feridos que acorriam ao hospital de Díli; e foi preso sete vezes, tendo conseguido fugir outras sete, algumas das quais saltando de camiões de transportes de presos com as balas a passarem-lhe junto aos ouvidos. Histórias não faltaram - tempo e talento para as contar aqui é que é pior...
A subida propriamente dita começou às 3h da manhã. Choveu durante toda a véspera, das 13h até às 2h da manhã. Nos dias anteriores, hesitámos em relação a fazermos ou não a subida, porque sabíamos que os trilhos são algo perigosos - muito estreitos e com precipícios dos lados -, ficando ainda mais perigosos na época das chuvas, por causa das derrocadas e do perigo de escorregar. Ainda por cima, a subida faz-se de noite, para poder ver o nascer do sol do topo da montanha - ou seja, sobe-se no meio da escuridão, sem se ver nada para os lados e com apenas as lanternas para ver onde colocar os pés. Uma das passagens (fotografia acima) foi especialmente emocionante - o trilho tinha sido levado por uma derrocada e a passagem era agora um monte de cascalho húmido numa vertente a 45º com um precipício para um dos lados que à noite, felizmente, não conseguíamos ver - apenas adivinhar pelo som das pedras a rolar lá para baixo. Felizmente, tudo correu bem e, à excepção dessa passagem, todo o resto do percurso estava em bom estado e não oferecia perigo por aí além. Assim, chegámos ao topo quando o sol já começava a raiar - e quando se alcança o patamar final, não tenho palavras para descrever o que se sente. Podem ver em cima algumas fotografias, mas acreditem que não há qualquer hipótese de transmitirem o que aquilo é. A vista é tão sublime que provoca um aperto na garganta e faz virem lágrimas aos olhos. É não só a paisagem mais fantástica que vi desde que aqui estou, como é provavelmente a mais bela que já vi em toda a minha vida - só o Grand Canyon me fez sentir algo igual. Para ajudar à festa, fomos presenteados com um duplo arco-íris concêntrico de um dos lados (dá mais ou menos para perceber na segunda fotografia a contar de baixo). Faz imenso frio no topo, sobretudo por causa do vento, pelo que custa bastante permanecer lá por muito tempo. Éramos sete: a Isabel, o Tozé, o Gabriel, eu próprio, o guia da montanha (outro que não o motorista, que aliás já levou centenas de pessoas até ao sopé, mas nunca subiu lá acima nem sente especial vontade) e dois enfermeiros da AMI que conhecemos na pousada e subiram connosco. Infelizmente, a Carla e o Zé Carlos, que haviam iniciado a subida com o resto do grupo, voltaram para trás a meio porque a Carla não se sentiu bem com a altitude e preferiu não insistir. O Zé Carlos, que era o único que já lá tinha ido acima (no ano passado) voltou para trás para ela não ter de descer sozinha. Foi pena não termos chegado todos ao cume, mas não deixámos de partilhar a maior parte da aventura. Entretanto, os enfermeiros da AMI e o guia começaram a descer antes do resto de nós, que ficámos um pouco mais e descemos mais devagar. A descida foi também muito interessante, porque era agora possível ver a paisagem que estava imersa na escuridão ao subirmos. Uma boa parte da descida foi feita no meio do nevoeiro, o que criava um ambiente espectacular de floresta encantada - a paisagem é bastante fantasmagórica, sobretudo por causa das formas retorcidas das árvores. Chegámos finalmente ao sopé por volta das 10h da manhã, não especialmente cansados, mas com bastante sono. Por isso, claro, fartámo-nos de dormir na viagem de regresso a Díli - sobretudo o Gabriel, que tem um talento sobrenatural para a coisa e aproveita quaisquer 5 minutos para dormir.
Duas mensagens finais: para o meu pai, para dizer que embora não tenha conseguido averiguar o potencial espeleológico do Ramelau, mantive a um nível bem alto (literalmente, claro) a tradição exploradora da família :-) ; e para a minha mãe e para o Alexandre, para dizer que a caminhada foi realmente impecável e que para o seu sucesso, pela minha parte, muito contribuiu a vasta experiência de caminhadas com o CAAL - aliás, podem até ir pensando em promover uma actividade internacional por estes lados...











































