Wednesday, November 30, 2005

O topo deste mundo








Neste último fim de semana, fomos subir o Ramelau. O grupo era constituído por seis intrépidos montanhistas - a Carla, a Isabel, o Tozé, o Gabriel, o Zé Carlos e eu próprio - que se dispuseram a desafiar a época das chuvas entretanto firmemente instalada para ver o glorioso nascer do sol lá do alto. Com quase 3.000 metros, o Ramelau era o ponto mais alto do antigo império português, sendo por isso conhecido, pelo menos de nome, pelas mesmas gerações que também sabem recitar de cor os apeadeiros da linha do Tua.
Desta vez, e para variar, optámos por um esquema organizado: fomos numa carrinha da Megatours com motorista próprio, que era bastante simpático e cheio de histórias incríveis dos tempos passados a combater nas montanhas. Uma elas foi especialmente gira, sobre o tempo em que ele e mais pessoal da UDT foram treinados pela Indonésia para irem para a linha da frente combater as Falintil. O que os indonésios não sabiam é que eles estavam feitos com as Falintil e por isso não se combatiam: avisavam-se uns aos outros das investidas e andavam ali para a frente e para trás a engonhar. De vez em quando, os timorenses do lado indonésio (incluindo o nosso motorista) combinavam e deixavam passar o pessoal das Falintil pelo meio das suas linhas para atacarem os verdadeiros indonésios que constituiam a segunda linha. O esquema foi descoberto porque as chefias indonésias começaram a achar estranho não haver baixas na frente - só na segunda linha!!! Na pousada no sopé do Ramelau, conhecemos também um outro tipo que é um verdadeiro documentro histórico sob a fomra de pessoa: esteve - e foi baleado - no massacre de Santa Cruz, tendo fugido para a montanha com uma bala na perna porque sabia que o exército indonésio estava a assassinar os feridos que acorriam ao hospital de Díli; e foi preso sete vezes, tendo conseguido fugir outras sete, algumas das quais saltando de camiões de transportes de presos com as balas a passarem-lhe junto aos ouvidos. Histórias não faltaram - tempo e talento para as contar aqui é que é pior...
A subida propriamente dita começou às 3h da manhã. Choveu durante toda a véspera, das 13h até às 2h da manhã. Nos dias anteriores, hesitámos em relação a fazermos ou não a subida, porque sabíamos que os trilhos são algo perigosos - muito estreitos e com precipícios dos lados -, ficando ainda mais perigosos na época das chuvas, por causa das derrocadas e do perigo de escorregar. Ainda por cima, a subida faz-se de noite, para poder ver o nascer do sol do topo da montanha - ou seja, sobe-se no meio da escuridão, sem se ver nada para os lados e com apenas as lanternas para ver onde colocar os pés. Uma das passagens (fotografia acima) foi especialmente emocionante - o trilho tinha sido levado por uma derrocada e a passagem era agora um monte de cascalho húmido numa vertente a 45º com um precipício para um dos lados que à noite, felizmente, não conseguíamos ver - apenas adivinhar pelo som das pedras a rolar lá para baixo. Felizmente, tudo correu bem e, à excepção dessa passagem, todo o resto do percurso estava em bom estado e não oferecia perigo por aí além. Assim, chegámos ao topo quando o sol já começava a raiar - e quando se alcança o patamar final, não tenho palavras para descrever o que se sente. Podem ver em cima algumas fotografias, mas acreditem que não há qualquer hipótese de transmitirem o que aquilo é. A vista é tão sublime que provoca um aperto na garganta e faz virem lágrimas aos olhos. É não só a paisagem mais fantástica que vi desde que aqui estou, como é provavelmente a mais bela que já vi em toda a minha vida - só o Grand Canyon me fez sentir algo igual. Para ajudar à festa, fomos presenteados com um duplo arco-íris concêntrico de um dos lados (dá mais ou menos para perceber na segunda fotografia a contar de baixo). Faz imenso frio no topo, sobretudo por causa do vento, pelo que custa bastante permanecer lá por muito tempo. Éramos sete: a Isabel, o Tozé, o Gabriel, eu próprio, o guia da montanha (outro que não o motorista, que aliás já levou centenas de pessoas até ao sopé, mas nunca subiu lá acima nem sente especial vontade) e dois enfermeiros da AMI que conhecemos na pousada e subiram connosco. Infelizmente, a Carla e o Zé Carlos, que haviam iniciado a subida com o resto do grupo, voltaram para trás a meio porque a Carla não se sentiu bem com a altitude e preferiu não insistir. O Zé Carlos, que era o único que já lá tinha ido acima (no ano passado) voltou para trás para ela não ter de descer sozinha. Foi pena não termos chegado todos ao cume, mas não deixámos de partilhar a maior parte da aventura. Entretanto, os enfermeiros da AMI e o guia começaram a descer antes do resto de nós, que ficámos um pouco mais e descemos mais devagar. A descida foi também muito interessante, porque era agora possível ver a paisagem que estava imersa na escuridão ao subirmos. Uma boa parte da descida foi feita no meio do nevoeiro, o que criava um ambiente espectacular de floresta encantada - a paisagem é bastante fantasmagórica, sobretudo por causa das formas retorcidas das árvores. Chegámos finalmente ao sopé por volta das 10h da manhã, não especialmente cansados, mas com bastante sono. Por isso, claro, fartámo-nos de dormir na viagem de regresso a Díli - sobretudo o Gabriel, que tem um talento sobrenatural para a coisa e aproveita quaisquer 5 minutos para dormir.
Duas mensagens finais: para o meu pai, para dizer que embora não tenha conseguido averiguar o potencial espeleológico do Ramelau, mantive a um nível bem alto (literalmente, claro) a tradição exploradora da família :-) ; e para a minha mãe e para o Alexandre, para dizer que a caminhada foi realmente impecável e que para o seu sucesso, pela minha parte, muito contribuiu a vasta experiência de caminhadas com o CAAL - aliás, podem até ir pensando em promover uma actividade internacional por estes lados...

Thursday, November 24, 2005

Da violência

Aconteceu há dias algo de terrível. Estava a dar uma aula quando a Leocardina, uma das minhas alunas, apareceu à porta da sala a chorar para me dizer que o irmão dela tinha sido atacado e, segundo entendi na altura, acabado por morrer dos ferimentos. Por isso, iria faltar nos dias seguintes porque ia acompanhar o corpo até ao enclave de Oecussi, onde vive o resto da família. Na verdade, como acabei por perceber mais tarde, fora um primo quem morrera, tendo outro primo ido parar ao hospital e o irmão (que era o alvo do ataque) escapado ileso. Foram esfaqueados na sua própria casa, uma residência para estudantes de Oecussi, durante uma falta de luz nocturna. Ao que parece, o ataque deveu-se a uma questão de namoradas e ciúmes, mas o que realmente impressiona é a facilidade com que ainda se mata e se morre por estes lados. Claro que se há coisa que não falta em Portugal são histórias de sacholadas gratuitas por causa de limites de terrenos, mas não deixa de ser significativo que, passando cá dois meses, aconteça uma coisa deste género a alguém relativamente próximo. Dispensei os alunos da aula da tarde e acompanhei-os até ao porto, onde se realizou uma pequena cerimónia com os amigos do rapaz assassinado. Nós fomos lá para demonstrar o nosso apoio à Leocardina, sobretudo porque ainda julgávamos que a vítima fora o irmão. Foi bastante perturbador. Estava um calor terrível, por volta das 16h, e a cerimónia foi tudo menos contida: apareceram talvez uns duzentos amigos do rapaz e da família e havia muita gente a gritar e em desepero. Enquanto esperávamos que a Leocardina chegasse, estive à conversa com outro dos meus alunos, o Augusto “Che” Godinho, cuja alcunha é, claro, uma referência ao “Che” original. A propósito, é impressionante ver como os timorenses idolatram o Che Guevara: é raro o dia em que nenhum dos meus alunos enverga uma t-shirt do Che e, por Timor inteiro, estamos sempre a encontrar posters, imagens e autocolantes com a sua imagem pelas paredes das casas, táxis e mikrolets (os mini-autocarros de cá). Esta conversa com o Augusto não ajudou nada a aligeirar o ambiente. Contou-me como se passaram as coisas em 1999, após o referendo e na altura da violência das milícias. Ele próprio abandonou Díli dois dias depois do anúncio dos resultados do referendo, quando as milícias já haviam começado a sua estratégia de terra queimada, assassinando centenas de pessoas e queimando e arrasando a maior parte dos edifícios. Antes de conseguir fugir, ainda passou por um grande aperto quando um miliciano que o vira a comemorar a vitória da independência no referendo lhe perguntou porque andava tão contente. O Augusto limitou-se a baixar a cabeça e a esperar o pior, mas o outro acabou por dizer-lhe para ir para casa e não voltar a manifestar-se. Ao regressar a Díli após duas semanas passadas na montanha, quando a força de intervenção multinacional já havia desembarcado, ficou a saber que um seu tio – famoso boxeur timorense pró-independentista – havia sido assassinado, juntamente com dezenas de outras pessoas, precisamente no local onde nos encontrávamos. Tinham ido para o porto para tentarem fugir de barco, mas foram cercados e massacrados antes de o conseguirem fazer. Nesta atmosfera irreal, foi então que ficámos a saber que a vítima fora afinal o primo e que os dois dos três assassinos até haviam já sido apanhados pela polícia. Acompanhámos a partida do barco, regressando depois a casa com um peso imenso em cima dos ombros e uma estranha sensação de paraíso perdido.

Os cinco na ilha encantada






E estas são as nossas melhores fotografias...!

As coisas do céu e da terra

Por algum motivo, acontecem mais coisas fora do vulgar aqui numa semana do que num mês em Portugal. Há dias, caíu um raio em cima da árvore que fica mesmo por trás da casa, queimando-a parcialmente e espalhando folhas por todo o lado. Eu estava a dar aulas, mas diz quem estava em casa que o barulho foi impressionante. Realmente foi uma tempestade daquelas. A Isabel, que cozinha e passa a ferro cá em casa, estava lá fora a três metros da árvore. Ficou bem, dizendo que apenas ouviu um estrondo e só depois percebeu o que tinha acontecido, mas desde aí o seu olhar tem andado mais estranho.
Ontem à tarde, quando voltava de bicicleta para casa, passei por um acidente automóvel acabado de ocorrer. Ninguém ficou ferido, mas um táxi ficou bastante mal-tratado. O jipe que lhe bateu (e que teve a culpa), provavelmente pertencente a alguma agência internacional, pôs-se em fuga, só tendo sido possível tirar parte da matrícula. Em Timor não há seguradoras, pelo que estas questões são sempre bastante complicadas – e às vezes resolvidas à catanada. Talvez por isso se tenha posto a andar. O episódio invulgar de há dois dias foi encontrar a Catarina Furtado aqui no bairro. Veio a Timor para rodar um documentário sobre voluntariado para a RTP. Uma das cenas foi filmada mesmo aqui, a 20 metros da porta da nossa casa. Quando cheguei a casa, cruzei-me com ela e dois colegas e amigos daqui, o Gabriel e o Tó Zé, com quem ela estava a falar. Curiosamente, com o barulho das luzes, não me apercebi de quem se tratava. Parei para falar com eles exactamente na altura em que ela se preparava para ir embora e desejei-lhe boa noite. Ela respondeu cordialmente, passou por mim e foi só quando comentei com os meus colegas que a amiga deles até era bastante engraçada que me disseram que era a Catarina Furtado. A Isabel até comentou que o modo displicente com que lhe desejei boa noite mais parecia para dar um ar blasé, mas a verdade é que me passou mesmo ao lado (em todos os sentidos). Dias antes, no Hotel Timor, tomei café ao lado do Fernando Gomes (ex-presidente da CMPorto e actual presidente da GALP), que cá veio para participar numa conferência sobre o petróleo do Mar de Timor, mas este último tem francamente menos encantos.

As noites quentes de Díli




Porque a vida por estas bandas não é só trabalhar (o que aliás já deviam suspeitar, tendo em conta os restantes posts...) e porque expatriado tropical que se preze não dispensa doses generosas de gin tónico, aqui ficam algumas imagens do início (e final...) de algumas das noites quentes de Díli. A substância em cima é o betel, levíssimo estupefaciente local que quase todos os timorenses mais velhos (incluindo as senhoras que cá trabalham em casa) mascam interminavelmente durante todo o dia. Masca-se a noz (areca) embrulhada em folha de betel, tudo misturado com coral moído para reduzir a acidez. O efeito é levemente excitante e semelhante à folha de coca: excitação análoga à causada por dois ou três cafés e redução da fome e apetite (o que será um dos motivos por que tanto mascam). Quando se exagera na "cal", como alguns de nós, a mistura quase parece soda cáustica e deixa umas aftas jeitosas. O Zé não conseguiu comer durante dois dias depois da experiência, num belo exemplo de como a droga faz mal à saúde e faz emagrecer as pessoas...!

Tuesday, November 15, 2005

Rádio Díli - flash info








Mais algumas imagens soltas da vida em Díli. De baixo para cima: o "corta-relva" do balcão da CGD/BNU; vista do Cristo-Rei e da Praia da Areia Branca (!!!), a partir da Praia dos Coqueiros; os meus alunos fazendo o teste de Economia Monetária; a minha casa no Bairro da Cooperação; veleiro na baía de Díli com a ilha de Ataúro em fundo (mergulho fantástico, segundo parece); os meus espartanos aposentos, com o mosquiteiro a espreitar em cima; velho timorense na Praia dos Coqueiros.

O tempo não é muito, desculpem o estilo telegráfico. Amanhã colocarei as novidades em dia...

Thursday, November 10, 2005

3ª saída: Viqueque e Mundo Perdido





No 3º fim de semana em que saí de Díli, partimos ao longo da costa Norte até Baucau - a segunda maior cidade de TL e aparentemente a mais poupada aquando da destruição de 1999, segundo parece devido à intervenção diplomático-financeira do bispo local. Baucau - e não Díli - possui também o maior aeroporto de TL, que se encontra porém actualmente desactivado por lá ter caído em 2003 um Antonov Il-76, ele próprio salvo erro um dos maiores aviões do mundo. Em Baucau, almoçámos - bastante satisfatoriamente, aliás - no Restaurante Benfica, o que reparou o meu orgulho clubista (ma non troppo) depois do vexame de Díli, onde a casa do Benfica está abandonada e em ruínas, enquanto a do Sporting serve o melhor expresso da cidade.
Depois de almoço, seguimos em direcção a Viqueque, atravessando a cordilheira central e passando entre o Mate Bian (Monte dos Espíritos) e o Monte do Mundo Perdido (mesmo assim em português, inclusive para os timorenses). O Mate Bian - tanto pelo nome, como pelas lendas que lhe estão associadas, como pelo facto de aí ter combatido e morrido uma grande parte da resistência - provoca ainda arrepios quando se pronuncia o seu nome. Isso aconteceu-nos, por exemplo, quando em casa referimos à Isabel e à Filomena que íamos para esses lados. Na verdade, porém, haveria de ser o Mundo Perdido - e não o Mate Bian - a reclamar o sangue de um de nós.
Fomos os seis do costume: eu, Zé Carlos, Isabel*2, Joel e Carla, grupo coeso excepto no que se refere ao gosto musical e com quem é um prazer viajar. O plano original era chegar ainda no Sábado à costa Sul, perto de Viqueque, onde faríamos uma nova tentativa de rendez-vous com os crocodilos. A verdade é que ficámos com água na boca depois das peripécias dos nossos colegas e mesmo as baleias que por duas vezes passaram a cerca de 100 metros da praia quando lá estávamos já não nos satisfazem. Há qualquer coisa que nos fascina neste animal e nos faz ansear por conseguir avistar algo que se assemelhe a uma lagartixa com mais de meio metro de comprimento. Porém, durante o caminho, a roda esquerda traseira do Pajero começou a fazer um barulho estranho e a cheirar a queimado, pelo que decidimos não ir além de Viqueque e parar para desmontar a roda e ver o que se passava. Quando o fizémos, percebemos que o problema era a falta de óleo no travão dessa roda, devido a qualquer entupimento no tubo. Ao tentarmos alterar a pressão para descolar o travão do disco - que era o que estava a causar o cheiro e o barulho -, o tubo rebentou e perdemos completamente os travões de trás, para além de termos perdido uma grande parte do óleo. Deu apenas para ir, à base de travão de mão, até ao único mecânico de Viqueque - um indonésio integrado pelo casamento -, que não tinha nenhum tubo de substituição e por isso se limitou a cortar o sistema de travagem traseiro, para pelo menos mantermos os travões da frente e não perdermos mais óleo. Claro que não parecia nada seguro seguir viagem dessa maneira, pelo que estávamos a começar a ver o fim de semana a ir por água abaixo. Felizmente, fomos muito bem tratados pela a agência em Díli onde alugáramos o jipe. Disseram que enviariam alguém asim que pudessem com um novo tubo e um novo jipe para resolver o problema. E, efectivamente, lá chegaram 4h30 depois. Trocaram de jipe connosco e, segundo parece, foram ainda dormir a Baucau onde no dia seguinte reparariam a avaria. Nós, entretanto, estávamos novamente em condições de seguir viagem.
O problema é que já passava da meia-noite e por isso já jantáramos e nos instaláramos numa pensão em Viqueque. Viqueque é uma cidade diferente das que visitei até aí. As pessoas são muito menos amistosas para os "malay" (designação genérica timorense para os estrangeiros), o que penso estar ainda ligado à forte repressão do passado, tanto por parte dos indonésios até 1999, como pelos portugueses que, por volta dos anos 40, penso, também aqui cometeram as suas atrocidades. Por outro lado, toda a Viqueque estava nesta altura sem abastacimento de água há já algum tempo, em resultado da falta de chuva e do açambarcamento por parte das vilas a montante. Isso obriga a que as pessoas e famílias se desenvencilhem como podem para ir arranjando água - de carrinha ou a pé até à montanha, ou pagando uma fortuna para encher os depósitos.
Assim, fomos mais uma vez forçados a renunciar ao encontro com os crocodilos e optámos antes por nos levantarmos cedo para subir ao Monte do Mundo Perdido, a 3ª montanha mais alta de TL. Foi baptizado, segundo parece, por um capitão português que há alguns séculos aí se aventurou, tendo passado pelas "Portas do Mundo Perdido", formação rochosa onde segundo a mitologia animista local reside o espírito da montanha, sem descobrir a cabeça. Isso teve como resultado que a montanha se zangasse e ele se perdesse por lá durante bastante tempo, falando ao regressar de um "mundo perdido". A verdade é que a montanha tem realmente qualquer coisa de vale encantado. O trekking é espectacular: começa-se por subir várias encostas relativamente áridas, para ao fim de 2 ou 3 horas se transpôr uma passagem única através de um conjunto de formações rochosas bastante estranhas e algo perigosas (fotografia em cima), depois das quais se chega a uma série de planaltos encaixados com búfalos e cavalos a pastar nos prados. A subida da encosta seguinte faz-se através de uma floresta húmida cheia de aves e macacos, com lianas penduradas por todo o lado, na qual os guias contratados na aldeia que fica no sopé, não nos deixaram tirar fotografias, mais uma vez por uma questão de sacralidade. Já perto da encosta final, cuja subida demoraria aparentemente mais outra 1h30, decidimos não ir mais além, pois corríamos o risco de ter de regressar de noite. O problema fora o mau planeamento: começámos a subida às 9h da manhã, quando para subir ao topo se deve sair às 6h. Em boa hora o decidimos: já no regresso, por qualquer desrespeito nosso ou capricho da montanha, aconteceu o primeiro acidente relativamente grave destes dias. Ao transpormos uma passagem vertical com cerca de 10m de altura, ainda que com bastantes apoios, o Zé Carlos distraiu-se momentaneamente e bateu com a cabeça num ramo afiado, que lhe fez um lenho na cabeça por onde começou a jorrar sangue pela cara abaixo. Felizmente, segurou-se bem, caso contrário teria ido lá parar abaixo - e naquele sítio nem o adido de segurança da embaixada, com quem nos reunimos no início da estadia, poderia fazer grande coisa... Um dos nossos guias fez rapidamente um emplastro com uma planta que estava à mão e que, incrivelmente, estancou a hemorragia em segundos. Continuámos a descida durante mais umas horas - o ZC com a cabeça embrulhada numa t-shirt - até chegarmos novamente perto de Ossu, no sopé, onde o Joel aplicou os seus conhecimentos de primeiros-socorros e fez uma limpeza rápida à ferida. O ZC acabaria por só ser cosido em Baucau, mas felizmente a ferida foi bem tratada e a única sequela que provavelmente durará mais que umas semanas é a carecada que levou no hospital. Quando tudo estava bem, ainda nos lembrámos que teria tido piada pedir a um dos guias para posar com a catana junto à cabeça do Zé, mas na altura não tivémos essa presença de espírito...

Galeria PB







Em cima coloquei algumas fotografias a preto e branco, tiradas em diversos locais e momentos. De cima para baixo: rapaz timorense com caveira de búfalo no Monte do Mundo Perdido; timorenses retirando petróleo da água à beira de um rio em Laclubar; os nossos amigos da praia da Liquiçá; homem a dançar na procissão entre Maubisse e Same; vendedores de tabaco e betel (estupefaciente local do tipo da folha de coca, que se masca com cal) em Maubisse; e ancião com o seu galo (talvez de combate), também em Maubisse.

Tuesday, November 08, 2005

Me, myself and I





Estas últimas fotografias foram tiradas pelo Joel - para eu próprio começar a aparecer um pouco mais...

2ª saída: Chamas sagradas



No fim de semana de 5 e 6 de Novembro, partimos para Laclubar e Soibada para tentar encontrar as "chamas sagradas", exsurgência geotérmica com significado religioso para a malta de cá. Pelo caminho démos boleia a uma rapariga americana do Peace Corps que está a passar 2 anos em Laclubar. É preciso ter espírito.... Fica a 6 horas de Díli por estradas indiscritíveis e a única maneira de contactar o mundo exterior é por telefone por satélite. Mas era simpática e quando chegámos levou-nos a comer uns bolinhos em casa dum padre brasileiro amigo dela que também lá está. Estão a imaginar... O trekking para encontrar as chamas foi espectacular, 3 horas para cada lado com uns miúdos locais, mas acabámos por não encontrar as chamas. Ficaram "lost in translation" e acabámos por ser levados a um rio em que além de água corre uma camada de petróleo que brota de dentro da montanha (como diz o Almeida Serra, se neste país se acende um fósforo com menos cuidado, ainda vai tudo pelos ares) e que o pessoal de lá recolhe com latas para depois decantarem a água e usarem como combustível. É interessante, mas de chamas não tem nada. Parece que as verdadeiras ficam noutra montanha lá perto - e essas são gás natural que se vai incendiando ao sair. De qualquer maneira, valeu e muito pelo passeio - e ficam aqui algums fotografias.

Monday, November 07, 2005

1ª saída: Díli-Suai-Díli
















O fim de semana de 29 e 30 de Outubro foi bastante prolongado. Houve feriado nos dias 1/11 (Todos os Santos), 2/11 (Finados), 3/11 (final do Ramadão) e ponte a 31/10, pelo que foi quase uma semana sem trabalhar. Os vários sub-grupos do pessoal daqui alugaram jipes e partiram para diferentes partes do país. Para mim foi a primeira saída, pois no fim de semana anterior tinha ficado em casa a trabalhar na tese. Como entretanto já tivera de entregar a versão provisória, decidi aproveitar mesmo para passear e descansar (ou assim julgava...). Assim, partimos (eu - a amarelo na fotografia de grupo -, o Joel - na foto com o ancião -, a Carla, a Isabel Neves, a Isabel Preto e o Zé Carlos) rumo à costa Sul, tendo atravessado o país transversalmente a partir de Díli e passando por Aileu, Maubisse e Betano. Pelo caminho passámos por dois mercados onde tirei algumas das fotografias em cima. Em Betano, esperávamos ver da praia os crocodilos de água salgada que regularmente atacam o pessoal de lá, mas não quiseram nada connosco. Curiosamente, de todos os grupos que partiram no fim de semana, fomos o único a não conseguir vê-los. Alguns colegas até chegaram a aperceber-se deles a cerca de 20 metros, quando estavam a nadar fora de pé numa praia perto de Viqueque. Ainda lhes hei-de pedir uma das fotografias para aqui pôr.
Antes de Betano, cruzámo-nos ainda com uma espectacular procissão sincrética, com uma Virgem Maria levada em ombros entre cânticos animistas e danças de sabre na mão (foto em cima). Nem valerá a pena dizer que não era propriamente para turista ver... é que aqui não há turistas. Entre outras coisas, porque também não há sítios onde comer ou dormir na maior parte de Timor, com raras e normalmente muito decrépitas excepções. Claro que isso só torna a coisa mais divertida. Quem quiser umas férias "back to the basics", venha cá ter!!! Para terem uma ideia, à excepoção de Díli, nenhuma cidade tem electricidade mais do que 4-5 horas por dia e há outras (cidades, note-se) que estão completamente sem água - potável ou não.
A zona do Suai está ainda um pouco agitada, pois fica perto da fronteira com a Indonésia e ocasionalmente há actividade das milícias. Não tivémos qualquer problema, no entanto. Uma coisa impressionante é a simpatia e a abertura das pessoas - muito diferente de Díli, onde também são em geral simpáticas mas nota-se um maior distanciamento. Outra coisa notável é conseguir falar português com muitas pessoas, sobretudo as mais velhas (com os jovens que cresceram sob a ocupação indonésia é quase impossível). E toda a gente se chama "Francisco Cardoso", ou "João Guterres", ou qualquer outra coisa assim. Ainda não encontrei foi mais nenhum Abreu, nem Alexandre. Depois da noite passada no Suai e de darmos umas voltas por lá, fomos ao longo da fronteira até Maliana, com um percurso TT de meter respeito. As estradas são indiscritíveis, mas as paisagens variadas e algumas muito bonitas. Espero que as fotografias consigam transmitir uma ideia. Depois de dormirmos outra noite em Maliana, fomos mesmo à fronteira em Batu Gade, depois Maubara e finalmente praia em Liquiçá, novamente na costa Norte - um dos momentos altos dos últimos dias! Fomos rodeados por dezenas de miúdos completamente alucinados e bem dispostos, com quem estivémos horas a jogar à bola, saltar e brincar dentro de água, etc. Também junto algumas das fotografias em cima. Foi mesmo fixe, provavelmente o meu melhor dia de praia desde há muito tempo. Poderia ficar aqui horas a contar mais pormenores, e tentarei realmente completar a narrativa e legendar as fotografias nos próximos dias, mas como agora já só tenho alguns minutos de internet, vou-me limitar a fazer o upload das imagens.

Thursday, November 03, 2005

Vida quotidiana


Vivo na casa 3 do bairro da cooperação, em Colmera, Díli. A minha casa fica a cinco minutos a pé da universidade e a quatro do Liceu Francisco Machado, edifício restaurado pela CMLisboa onde dou as minhas aulas por falta de salas no edifício da UNTL. Na verdade, demoro menos do que isso, porque vou sempre na bicicleta que comprei e que deixo à porta da sala.
Vivo com cinco colegas: três da minha idade e dois um pouco mais velhos (e bastante mais experientes). A casa é bastante boa – sobretudo em comparação com as restantes casas de Díli, como é evidente. Temos um gerador próprio no bairro, que garante que não há quebras de corrente, água corrente não potável mas constante e suficientemente pouco inquinada para que se possa usar para lavar a louça, uma televisão que passa a TVTL (e a Praça da Alegria fora do horário normal de emissão, o que nos faz mesmo sentir como emigrantes...!), quartos individuais pequenos mas simpáticos com mosquiteiro e ar condicionado, entre outros pequenos luxos de expatriados...
Outro luxo é trabalharem cá em casa duas senhoras, a Filomena e a Isabel, a primeira paga pela Cooperação Portuguesa para tratar das limpezas das várias casas e a outra contratada por nós para passar a roupa e fazer as refeições. Embora comamos algumas vezes fora (nalguns casos, mesmo muito bem), fazemos a maior parte das refeições em casa por uma questão de poupança. No outro dia, a Filomena revelou um talento insuspeito: acordei bastante indisposto por ter ficado até tarde à conversa com bastantes gin tónicos pelo meio, que se devem ter combinado no fígado com a mefloquina para me deixar entre o agoniado e o levemente deprimido. Para ajudar, o portátil parecia estar com problemas: o leitor de CD-Rom recusava-se a funcionar e o computador bloqueava no arranque por não conseguir perceber se lá tinha algum disco de sistema ou não. Por ser certamente impossível encontrar maneira de o reparar cá em Timor, e porque deixar de contar com o portátil seria dramático para a preparação das aulas e sobretudo para a tese, devia estar com uma expressão mesmo desanimada. A Filomena deve ter-se apercebido disso e perguntou-me se estava tudo bem. Quando lhe expliquei o que se passava, disse-me para me deitar e relaxar – e fez-me uma massagem fantástica, segundo parece utilizando as técnicas que aprendeu com a avó. Segundo disse, como a família está longe, as pessoas com quem estamos no dia-a-dia têm de ser um pouco como uma família longe de casa. Também me tacteou o interstício entre o polegar e o indicador de cada uma das mãos, para poder fazer um diagnóstico geral de maneira tradicional. Aparentemente, o coração está bem e o sangue flui como deve, mas tenho de aprender a ter mais calma e não andar sempre tão tenso. Não me parece que este diagnóstico tivesse muitas hipóteses de errar, fosse qual fosse a técnica utilizada, mas a massagem foi realmente eficaz, pelo menos a sua capacidade de sugestão é bastante boa e não há dúvida que foi muito simpática. Criei foi bastante inveja entre os meus colegas. Agora toda a gente quer massagens da Filomena, e muitos até se andam a aplicar mais no gin tónico para os seus casos serem mais convincentes, mas até agora ela tem sido inflexível. Só aplica os seus talentos com a família ou quando acha que se justifica mesmo, embora aparentemente seja bastante solicitada tanto pelos vizinhos e conhecidos como pelos residentes no bairro da cooperação. Fiquei muito mais bem disposto, a ressaca do gin mefloquínico passou e até o computador ficou subitamente impecável, embora este último dificilmente se deva à Filomena.

As aulas


O extravio da bagagem não foi uma preocupação que me tocasse, mas não faltaram outras para compensar nos primeiros tempos: cheguei a Timor numa situação de relativo desconhecimento do que me esperava em relação ao funcionamento das aulas, sem o jogo de cintura que alguma experiência docente anterior me poderia dar e com uma tese de mestrado para acabar de escrever (segundo pensava à altura, nos 20 dias que me restavam até ao final de Outubro). Por receio de esgotar rapidamente o que tinha para dizer, preparei por excesso a primeira aula de cada uma das minhas duas cadeiras. Foi realmente por excesso, pois acabei por demorar mais de uma semana a dar essa matéria. Assim comecei aos poucos a descobrir que, efectivamente, os alunos sabem por regra menos que os professores... e que, por isso, aquilo que parece mais ou menos evidente para quem já sabe pode sê-lo muito menos para quem está a aprender. Se isto é quase sempre verdade, é-o certamente muito mais no caso dos meus alunos timorenses. São mesmo muito simpáticos e a maior parte tem realmente vontade de aprender, mas a falta de preparação é impressionante. O domínio do Português é confrangedor, o nível de cultura geral assustador e os conhecimentos de Economia estão mais ou menos ao nível do ensino secundário. Não estou a exagerar: passadas três semanas de aulas, poderia dar dúzias de exemplos, mas para dar uma ideia de como as coisas se passam, basta dizer que ninguém na turma fazia a mínima ideia da diferença entre votos brancos e abstenção ou que muitos não sabiam o que é ou para que serve um cheque (o que é especialmente engraçado para quem ensina Economia Monetária), para já não falar de conceitos elementares de economia como custo de oportunidade, economia de mercado e outras coisas do género... Por isso, tive de repensar a forma como iria dar as aulas, tendo-me decidido finalmente por um modelo em que reparto o tempo em partes mais ou menos iguais entre a matéria das cadeiras, a explicação do significado das palavras e conceitos utilizados para dar essa matéria e questões de cidadania e cultura geral. Obviamente, ficarei bastante longe de dar todo o programa que tinha pensado originalmente e que se baseara no que os professores do ano anterior tinham dado. Claro que, à luz do que sei agora, parece-me impossível que esses programas não sejam óptimas obras de ficção. Das duas, uma: ou os programas foram dados da maneira indicada nos relatórios, que é bastante próxima do ritmo das universidades portuguesas, e ninguém percebeu absolutamente nada; ou os professores optaram (sensatamente, na minha opinião) por dar menos matéria e garantir que os alunos realmente a aprendiam, mas por alguma razão sentiram-se na necessidade de disfarçar essa opção.
Assim correm as aulas neste momento – tentando descortinar novos níveis de simplicidade na explicação da matéria, com uma grande componente de ensino de português e com ocasionais digressões de meia hora para ensinar coisas que bacharéis (como eles em princípio serão no final deste ano) não podem realmente deixar de saber. Na verdade, são essas as que me dão mais gozo. Numa das últimas, apelei à tradição geográfica familiar e, a propósito do desconhecimento da parte deles do que eram as estações do ano, acabei por passar meia hora a falar de rotação, translacção, latitude, longitude, trópicos, equinócios, eclipses, etc. Foi mesmo muito recompensador: alguns ficaram de boca aberta ao saber que a terra anda à volta do sol. No final, disseram-me que era melhor a ensinar geografia do que economia. Como não sei bem se queriam dizer “ainda melhor”, confesso que fiquei um pouco preocupado...

A chegada


O vôo de Den Pasar (Bali) para Díli foi feito num avião da Merpati Air e a baixa altitude, proporcionando óptimas vistas de Lombok, Sumbawa, Komodo, Flores e Alor (foto em baixo) – ilhas da província indonésia de Nusa Tenggara por onde planeamos viajar entre 10 de Dezembro (final do bimestre e partida de Díli) e o regresso a Portugal a tempo do Natal. Viajámos com um bispo timorense no porão: falecera fora do país e teve de ser repatriado post-mortem. Por isso, estavam à “nossa” espera na pista do aeroporto o primeiro-ministro Mari Alkatiri e um pequeno pelotão de jornalistas. O espaço ocupado pelo caixão teve como consequência, por outro lado, que alguns dos meus companheiros de vôo (entre os quais outros professores contratados pela FUP - Fundação das Universidades Portuguesas - para dar aulas na UNTL neste bimestre) chegassem sem as bagagens, que só viriam de Bali alguns dias depois.